O homem que eu comi aos bocadinhos

O homem que eu comi aos bocadinhos

Elle me amolava tanto que eu já o tinha de olho para um churrasco.
Uma vez elle falou em “Amor por princípio”.
Eu achei que uma citação dessa merecia uma dentada. E ferrei-lhe os dentes.
Outra vez sahiu-se com “A ordem por base”.
Eu me indignei tanto que mordi-lhe de novo.
De uma feita, passeando com elle, ouvi de sua boca “O progresso por fim”.
Era demais!
Rasguei a carne do “cidadão” a custa de dentadas.
Agora elle anda branquinho por causa da brancura do esqueleto.
Eu comi toda carne d’elle e sómente deixei a língua avermelhando na alvura da caveira.
Eu deixei a língua de proposito.
E quero ver si elle tem coragem de me dizer “Viver para outrem, viver às claras”.
Si elle disser, então morrerá como peixe: pela boca.
O coitado é positivista, e talvez por isso estava com a carne mesmo no ponto de ser comida.
E eu comi.
João do Presente (1928)

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Jefferson Péres

“A democracia brasileira está consolidada, mas não totalmente imunizada. Acho a classe política brasileira, em sua maioria, patrimonialista, usa o Estado a seu favor. Herdou essa cultura dos tempos coloniais e já deveria ter se libertado disso, mas parece que ficou no gene. Não tem espírito republicano. O Brasil proclamou a República, mas nunca a implantou.”
Jefferson Péres. “Confissões de um relator” in Aliás – Estado de S. Paulo, 9/12/2007, pg. J-3

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Umberto Eco

“Movimentos milenaristas surgiram em vários séculos, e ainda surgem nos nossos dias em comunidades marginais que muitas vezes deram ensejo até a suicídios coletivos. Para falar apenas do início dos tempos modernos, bastaria recordar episódios como a revolta dos camponeses durante a reforma protestante, que foi transformada em utopia de uma sociedade igualitária por Thomas Müntzer (que se definia como a foice afiada por Deus para ceifar os inimigos e via Lutero a Besta e a Prostituta de Babilônia) ou como os anabatistas de Münster, que chamavam sua cidade de Nova Jerusalém, anunciavam a destruição do mundo antes da Páscoa, viam em João de Leida o Messias dos últimos dias e acabaram morrendo em um massacre que parecia imaginado por João no Apocalipse”
Umberto Eco. “História da Feiúra”. Rio de Janeiro: Record, 2007, pg. 80

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Frederico Di Giacomo Rocha

“Minhas raízes eu partilho com as velhas árvores de casa”
Frederico Di Giacomo Rocha

Tenho saudades daquelas árvores velhas,
das suas cascas,
do cheiro de suas flores,
E das suas folhas secando no chão.
Sinto saudades de trepar na pitangueira e naquela mangueira sábia
De sentir suas rugas roçando no peito
Da pequena jabuticabeira cabeluda
E da acerola que ocupava, meditativa, o centro do quintal
O velho quintal era um universo místico
Uma selva, um templo, um picadeiro
Marcado por árvores que eu conhecia de cór.
Como o limão cravo que se enroscava amoroso no pé de boldo.
Até dos pequenos morcegos eu sinto falta, quando devoravam as frutas
Faziam barulhos e, às vezes, se perdiam, cegos, dentro de casa,
Como as aleluias que se amavam, intensas, no verão
As cigarras barulhentas
E as formigas gigantes.
Depois foi só concreto, prédio
Avenidas, carros
Neve,
E eu tão distante de mim que me perdia
Sem me conhecer.
E vocês com seus tribunais no olhar
Achando que eu surgira ontem, por geração espontânea
Em alguma rua de Pinheiros
Em algum meeting de publicidade
Em algum café com menu escrito a giz na parede negra que queria estar em Williamsburg.
Vocês não conhecem o cheiro da terra seca que a chuva molha
Nem textura da fruta pão
Nem o pé de mexerica que nunca vingou.
Vocês não cravaram o casco do pé no espinho da primavera fundo
Nem viram a grama morrer de sede e perder lugar
Pro mato oportunista
Não.
Vocês acham que me conhecem,
Mas mal se interessam em perguntar de onde eu vim
E já julgam o passado pelo futuro.
Não, meus amigos, em qualquer lugar do mundo,
Vocês
Não me conhecem, não,
Nunca vão conhecer
Tão longe das árvores
Que me viram crescer.

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Joseph Campbell

“O Homem de Pequim (Sinanthropus pekinensis, cerca de 500.000 anos atrás),… foi contemporâneo, grosso modo, do Homem de Java (Pithecantropus erectus) e, na Europa, do Homem de Heidelberg (Homo heidelbergensis); suas ferramentas toscas de pedra lascada eram do tipo dos ‘cutelos’, já observado na Cultura Soan da Índia. Seus hábitos alimentares incluíam o canibalismo, e sua caixa craniana,…, ‘era muito baixa com saliências supra-orbitárias exageradamente fortes’. O queixo, ‘oblíquo como o dos antropóides’, juntamente com os traços da fonte, deve ter proporcionado um perfil pouco promissor. Esse homem tosco, no entanto – a não ser que evidências enganem – , foi a primeira criatura na terra a fazer uso do fogo.”
Joseph Campbell. “As Máscaras de Deus”. São Paulo: Palas Athena, 2002, p. 292 e 293.

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