A “Revolução” de 1932

A “Revolução” de 1932

“Marcha soldado paulista ,
Marca o teu passo na História!
Deixa na terra uma pista:
Deixa um rastilho de glória !”
Guilherme de Almeida (“Passo do Soldado”)

O que levou São Paulo a pegar em armas para combater o governo de Getúlio Vargas , entre julho e outubro de 1932 ?
Foi o desejo pela ordem constitucional e o respeito às leis e liberdades suprimidas pelo governo desde 1930 ? O objetivo do movimento era a revanche contra a Revolução de 1930 , idealizada pela velha elite dos cafeicultores ?
O Estado de São Paulo , como todo o país , sofria os efeitos da grave crise de 1929 , acrescida por uma instabilidade administrativa motivada pela ação dos interventores nomeados pelo governo federal .
Sob esse clima , os paulistas foram mobilizados através de uma eficiente campanha de caráter cívico, que lembra as mobilizações de massa dos regimes totalitários . Milícias civis cuidavam da manutenção da ordem. São organizadas legiões ou milícias para completar o exército paulista ( formado pela Força Pública e tropas do exército federal que desertou para o lado dos paulistas ) , como o Batalhão Universitário , o Batalhão Esportivo e a Milícia Industrial ( organizada pela FIESP , para evitar possíveis sabotagens , porque temiam o apoio do operariado ao governo Vargas ) .
O apelo cívico , pode ser observado também na campanha “ouro para o bem de São Paulo”, onde a população era convocada a contribuir com jóias para garantir a autonomia econômica do Estado , garantindo também , o funcionamento da indústria bélica : balas, granadas para canhões, capacetes de aço , máscaras contra gás, trens blindados, lanchas blindadas , carros lança-chamas , etc. Batalhões infantis, desfilavam pelas ruas ,proferindo palavras de ordem como : “Se necessário , também iremos !” . Foi grande também , a participação feminina , na frente de batalha , em instituições como a Cruz Vermelha e em hospitais .
O movimento paulista exigia a autonomia do Estado e nomeação de um interventor civil e paulista , exigências já atendidas por Vargas, que nomeara Pedro de Toledo para governar São Paulo . De certa forma, Vargas já vinha atendendo à várias reivindicações da elite paulista, interferindo , por exemplo, logo após a Revolução de 1930 , no preço do café , atingido pela crise de 29 . Vargas também nomeou comissões para elaborar o código eleitoral e o anteprojeto da Constituição , fixando data para as eleições da Assembléia Constituinte (maio de 1933).
Essas medidas não satisfazem o Partido Democrático ( aliado de Vargas , quando da formação da Aliança Liberal em 1929) que une forças com seu antigo adversário , o Partido Republicano Paulista . Assim , os políticos revolucionários de 1930, descontentes com os rumos tomados pelo governo Vargas , organizam o movimento com o apoio inicialmente de Minas Gerais ( a “neutralidade simpática” , que depois se transforma em “hostilidade armada”) , Rio Grande do Sul ( Partido Libertador) , Mato Grosso ( tropas mobilizadas pelo General Bertoldo Klinger ), Rio de Janeiro ( grupos de simpatizantes, como por exemplo, Agildo Barata) .
O movimento contou também com a participação ativa de antigos líderes militares, inconformados com a perspectiva de democratização, fascinados com o crescimento dos regimes totalitários europeus , que enxergavam o Governo Vargas, como um governo imobilizado, incapaz de atender aos interesses da “pátria”, de sua “modernização”. A elite empresarial paulista absorverá esse ideário , transformando em bandeira cívica para suas realizações no plano nacional .
Era preciso contar com o apoio das massas para a realização desses objetivos, e para tanto, como já relatei , uma eficiente campanha com a utilização do rádio ( a atuação de Alcântara Machado e João Neves da Fontoura foi significativa , para transmitir o ideal cívico e alistar voluntários) , panfletagem , cartazes , imprensa , será realizada .
Nesse contexto , o movimento ganha as ruas , lembrando o dia 23 de maio , quando uma turba atacou a sede da Legião Revolucionária ( grupo tenentista, aliado de Vargas) , sendo recebidos a bala , resultando na morte de manifestantes , que foram transformados em mártires (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo – MMDC) . O resultado das campanhas foi extraordinário : 80.000 donativos ( mais de 6.000 contos de réis) ; 200.000 voluntários se inscreveram , mas só 30.000 foram mobilizados devido a falta de armas .
Manchete do jornal Diário de S. Paulo de 10 de julho de 1932 : “Irrompeu ontem , em São Paulo , um movimento Revolucionário Constitucionalista” . A ação militar estava sob o comando dos Generais Bertoldo Klinger e Isidoro Dias Lopes , auxiliados pelo coronel Euclides de Figueiredo .
Porém , a superioridade das forças legalistas e o isolamento de São Paulo ( que não contou com o apoio dos Estados que inicialmente concordavam com o movimento ) , levou a uma guerra desgastante , permitindo a vitória das tropas legalistas , sob o comando do General Góis Monteiro .
633 paulistas morreram em torno de um ideal “eminentemente conservador. Os homens de negócios, os proprietários de fábricas, os banqueiros e outros elementos conservadores de São Paulo tomaram um papel de liderança no movimento, e as classes endinheiradas no resto do Brasil também pareceram simpáticas a ela . Em contrapartida as classes trabalhadoras (…), mesmo em São Paulo , não tomaram o lado da Revolução.” ( José Thomaz Nabuco , citado por Paulo Sérgio Pinheiro in “Além do Revanchismo”. Isto É , 18/7/1979, pg. 61) . As camadas populares não idealizaram o movimento . Este papel coube a elite com o apoio da classe média . O povo sofreu a ação dos eficientes mecanismos de propaganda , e os grupos populares organizados , relutaram ,quanto puderam ,em apoiar o movimento .
Terminado o confronto , realizada a pacificação com a punição dos revoltosos (exílio, suspensão de direitos políticos, prisão) , São Paulo passa a ser governada por outro interventor paulista , Armando Sales Oliveira .
Getúlio Vargas cumpre o calendário da Constituinte, garantindo os interesses das classes conservadoras, consolidando uma estrutura autoritária fortemente influenciada pelos militares.
Em outubro de 1932 , aproveitando a onda cívica do movimento paulista de 32 , Plínio Salgado funda em São Paulo a Ação Integralista Brasileira , a versão tupiniquim do nazi-fascismo .

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