O homem que eu comi aos bocadinhos

Elle me amolava tanto que eu já o tinha de olho para um churrasco.
Uma vez elle falou em “Amor por princípio”.
Eu achei que uma citação dessa merecia uma dentada. E ferrei-lhe os dentes.
Outra vez sahiu-se com “A ordem por base”.
Eu me indignei tanto que mordi-lhe de novo.
De uma feita, passeando com elle, ouvi de sua boca “O progresso por fim”.
Era demais!
Rasguei a carne do “cidadão” a custa de dentadas.
Agora elle anda branquinho por causa da brancura do esqueleto.
Eu comi toda carne d’elle e sómente deixei a língua avermelhando na alvura da caveira.
Eu deixei a língua de proposito.
E quero ver si elle tem coragem de me dizer “Viver para outrem, viver às claras”.
Si elle disser, então morrerá como peixe: pela boca.
O coitado é positivista, e talvez por isso estava com a carne mesmo no ponto de ser comida.
E eu comi.
João do Presente (1928)

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